Branco

Em dedos trêmulos, respiro. Foi um giro afiado, fino, incisivo, como quem quer me tomar para fora de si. Expande-se, grave, por cada grão que se preenche nos espaços dos meus dedos quando danço os meus passos.


De repente, sinto tudo, sei de tudo, eu sou a minha própria conexão. E a vida célebre nada se parece com lamúrias, ruínas e lacunas com ecos em toda parte.


De repente, eu sou eu. E eu vou sendo tão eu, tão eu, que deixo de me ser.

Inerte. Inerente a mim mesma, mas nua, crua e cheia de espaços preenchidos com o mais potente e escandaloso vazio, da tentativa torpe de sentir o que é nada.

Invasão de mim

Introdução

 Eu trago aviso de cautela na trajetória do meu enredo, muito embora a vida, em si, tenha sido impiedosa ao não me deixar nenhuma prévia. Não vou passar adiante meus rancores inconscientes e, muito menos, ser incompreensível e prepotente a ponto de achar, com toda a minha estrutura, que a existência humana é o Sol da nossa galáxia. O umbigo do corpo. Ou me fazer de tola, como quem não sabe que o propósito de viver trata-se, justamente, de não saber.

Capítulo 1: Existir

 Tenho medo. Sei que o corpo humano é praticamente todo composto por água, mas posso apostar que existe uma grande porcentagem de pavor que ajuda a me compor biologicamente. O amedrontamento escorrega tranquilo pelas minhas veias capilares, em seu próprio território. Não desbrava muita coisa, fica ali exercendo a inércia da minha pulsação. Já está entranhado e meus passos são em prol de sua eliminação.

 Não tem a menor condição de viver sem medo. Ele me ergue no grito e me abraça à noite, durante o choro arrependido. Ele segura minha mão quando estou sozinha, naquela esquina estreita e mal iluminada, quando vêm, à minha mente, as recordações penosas do abuso que é ser mulher.

 É absurdo ser. Mesmo quando não se sabe o que é ser, de fato. É um descuido dos astros, uma explosão de falhas formando um planeta, uma sociedade, uma intolerância e uma reunião de divergências que brigam, se beijam e se mordem.

 O ser humano é engraçado – eu totalmente inclusa -. Tem medo de morrer e, por medo de morrer, não vive. Tem medo de envelhecer e se conforta na rigidez do tempo estrutural. Encontra, muitas vezes, felicidade na superfície do ter. Acho que é questão de clareza – e um pouco de sorte – encostar num coqueiro, permitir um abraço do vento, um alento do cheiro mar, na solitude e encontrar, ali dentro da própria existência, a felicidade nua. Crua. Sem mais delongas. Sem muito molho na refeição. Achar, sem querer, a felicidade em sua forma natural, no sorriso trocado por desconhecidos na fila do banco. No choro interrompido por uma lembrança boa. Ou na criança carregando toda a ingenuidade num riso que ecoa por toda a avenida.

 Eu tenho medo da areia da minha ampulheta. Tanto medo, que esqueço a hora de virar. Fico estática, estagnada e enfadonha. Fico só observando os grãos alheios no movimento contínuo que implica a nossa rotina cultural. É maçante. É excruciante. E eu alimento esse masoquismo como quem alimenta um bebê faminto. Em contrapartida, tenho pavor de ficar inerte à vida. Ironia é o meu sobrenome.

 Sempre tive grande apreço por cachorros e gatos. Eles não possuem a mesma noção de tempo que nós. Eles não têm relógio, calendário e agenda de compromissos. Eles vivem menos, mas, provavelmente, vivem mais. A morte nem é uma questão a ser debatida. A autodefesa é a própria biologia cuidando da espécie.

 O tempo… É a relatividade dos ponteiros atrasados em todas as cores das luzes no lençol. É o cheiro da pele coberta, do indefeso escancarado, da madrugada alcoólica no eclipse lunar.
É a janela aberta, o não sair na emergência, é beirar-se na solitude e despencar em outros braços. Escolha torta, choro forte, pura inexistência no convexo do mundo.
É viagem para si, desfazer as malas, entrelaçar de dedos por míseros três passos. O tempo passa, não acaba. A vida passa e fica. É infinidade em cada término, em cada inspiração, em cada dimensão da própria existência.

 Eu tenho medo de não existir. Tenho medo, também, dos segundos que antecedem a morte. Será que dói? Será que é bonito? A ansiedade vem com as duas mãos pesadas no meu pescoço. Às vezes eu nem acredito que vou morrer, mas tenho plena certeza que isso é discurso do meu ego. Tento ignorá-lo sempre que posso.

 Escrever é minha válvula de escape e isso é inegável. Uma parte considerável de mim quer perpetuar, mesmo depois de apodrecer a carne. A palavra eterniza a pessoa. O registro da palavra é embrulho de presente. Às vezes meio torto, às vezes perfeitamente trabalhado. Alguns tiram com delicadeza o texto do pacote, suave cautela. Em certas ocasiões, são rasgados com a brutalidade da ânsia de ler.

 Alguns textos me abraçam apertado ao mesmo tempo que me agridem o rosto. Há autores e autoras com quem eu gostaria de dividir o silêncio, talvez escolher um cantinho para deitar em posição fetal e despejar rios inteiros pelos olhos. Não sei se alguém abraçaria minhas palavras ou se elas o fazem também. Eu nem sou adepta de grandes contatos físicos, as vivências me quebraram inteira na sensibilidade carnal. Maldita seja a falta de educação sexual para crianças. Entender sobre consentimento, desde cedo, evitaria que eu confundisse carinho com abuso. Meu corpo não quer o toque, mas todas as minhas palavras precisam dele. Eu vou viver de alguma forma no buraco apertado do counter das letras mais miúdas.

 Eu me questiono se memória é violência. Qual a necessidade de perpetuar angústias as quais escrevo para esquecer? Compartilho para tirar um tanto de mim. Talvez seja, até, um ato completamente egoísta e recheado de carência emocional. Quase como um grito desesperado, clamando por socorro, implorando para que alguém me leia e tenha a doçura de me tirar de mim. Aqui dentro o ar é rarefeito. É espuma que transborda no copo de cerveja. É a dor fina da agulha tatuando a pele e também a cicatriz que traz a experiência sensorial das cores. Acho que a minha lápide seria uma tragédia.

 Eu até gosto de existir. Gosto até mesmo nos dias insuportáveis. Gosto dos nós na garganta, das dores imensuráveis, das batalhas diárias para levantar da cama. Sem a hipocrisia de dizer que nunca cogitei a possibilidade de não existir mais. Acho que qualquer pessoa que tenha mergulhado nos mais profundos abismos mentais sabe que viver é insensato. É quase burrice. Até onde me recordo, não pedi por isso. Embora eu tenha conhecimento e abertura o suficiente para acreditar que escolhemos desde as constelações até a ponta do embrião. É nossa responsabilidade lidar com o que nos é dado. Por mais que viver seja inútil, também pode ser reviravolta, pode ser dádiva, pode ser a sensação mais esotérica que vamos conseguir usufruir.

  Às vezes tomo tantos goles de mim que fico de ressaca. Ressaca bruta mesmo. Daquelas que estouram a cabeça, agridem os olhos e cutucam a boca do estômago. A embriaguez é ardilosa. Ela sussurra sedutora ao pé do meu ouvido, dança envolvendo toda a minha silhueta. Ela me puxa, me amarra e me faz feliz. E eu viro o copo, a taça, a garrafa, a vida de cabeça para baixo. Estou feliz por horas breves, balanço em ritmo no banheiro do bar. Encaro minhas pupilas dilatadas no espelho. Eu estou completamente bêbada da cachaça de mim mesma. Eu sou um porre.

 Eu sou saxofone forte morrendo em sua boca. Não sou livro de cabeceira. Sou livro empoeirado no fundo da estante, livro denso, árduo, meio desistente, para quem tem a bravura de ler. Eu sou para quem tem coragem.

 No útero, eu fui resistência. Acabei decorando a palavra e sendo-a por todo o meu desenvolvimento. Quando criança, sementinha de girassol. Pisaram e cuspiram a terra que me cobria, entardeceram minhas pétalas e apressaram meu caule torto. Ninguém alivia, não. Ninguém quer saber se você tem sete, oito ou nove anos de vida. Só. Ninguém se preocupa com as lacunas deixadas no seu inconsciente, por não compreender toda a dor. Toda a invasão, toda a maldade enfiada com força em seu corpo mirrado. Porque criança não entende, então está permitido. Ninguém vai descobrir. Só esquecem que criança cresce e vira um monte de destroços espalhados, juntando os caquinhos, colando as próprias peças soltas. Cresce e vira sabe-lá-o-quê.

 Quer saber? Eu também tenho medo de viver.

O som das patinhas

Eu tinha cinco anos de idade e queria um animal de estimação, como a maioria das crianças. Nunca escutei as trezentas vezes em que minha mãe relutou, afirmando que daria trabalho. Alimentar, dar banho, limpar a sujeira… Eu queria arcar com tudo aquilo.

Sentada no chão do banheiro frio, deixando a água cair em seus pelos já cinza. Passei os dedos por seu tronquinho frágil, senti os ossinhos e, de repente, me vi consubstanciada à ela. Eu não sabia mais onde começava Luna e onde terminava a ponta dos meus pés. Eu era cauda, latido, mordida. Ela era choro, voz, cabelos e resistência. Eu estava fraca, porque sua ração estava intacta e a água só descia pela garganta em jatos de seringa. Eu estava fraca, com os olhos nevoados, tentando me fazer acreditar que sua cegueira não a impedia de enxergar que eu estava ali para ela. E que sua surdez seria capaz de fazer-lhe perceber, de alguma forma, que eu gritei que a amava.

Nunca conheci um cachorro tão resistente. Bebeu veneno e o mesmo se esvaiu de seu corpo como água, foi atacada por um cão três vezes maior que ela, amputou quatro dedos das patas e, ainda assim, tinha a ferocidade de fazer com que a vizinha precisasse levar pontos na mão – por uma leve abocanhada.

Uma bola de pelos pretos e olhos de jabuticaba que se acinzentaram. As patas brancas, como se sempre estivesse de meias calçadas, faziam o som característico da felicidade. E a personalidade forte, brava, indômita, que foi virando semente, virando flor, virando pétala e que murchou. Luna foi lua e eu a amei em cada fase, eu me fiz constelação e acompanhei suas peripécias.

A água do chuveiro misturava-se com o salgado dos meus olhos, não sentia mais odores, só as dores de um relógio quebrado. Quase dezessete anos, mas o carinho nunca foi “quase”. Meus dedos já eram suas costelas, meu rosto já era focinho, eu fui enfraquecendo, fui me debruçando, eu respirei, ela respirou, eu respirei, ela parou. Eu ainda ando pelo corredor, ainda tenho seu cobertor, suas fotos espalhadas misturam-se com as minhas. Ainda guardo sua imagem branda, um aperto no peito, uma porção de amor. Eu ainda ouço o som das suas patinhas.